"Uma vez que não podemos ser universais e saber tudo quanto se pode saber acerca de tudo, é preciso saber-se um pouco de tudo, pois é muito melhor saber-se alguma coisa de tudo do que saber-se tudo apenas de uma coisa." - Blaise Pascal

7 de dezembro de 2012

Para escrever o poema



A escrita não é propriedade de todos. Para seduzir os leitores, o escritor precisa conjugar originalidade com classicismo. Nuno Júdice, um dos nossos grandes poetas contemporâneos, atingiu a quintessência nessa conjugação, tornando-se um génio na arte de escrever !  A sua lírica está em constante sintonia com o quotidiano sem negligenciar a originalidade. Será por isso que quando conheci a Nuno Júdice, comecei a gostar verdadeiramente de poesia!

Nuno Júdice nasceu em Mexilhoeira Grande, no Algarve, em  1949. Estudou Filologia romana e é um  conhecedor exímio de literatura medieval ibérica.  Em 1969, entrou como crítico literário para a revista O Tempo e o Modo, uma revista influenciada pelo movimento francês de Maio de 1968. O seu primeiro livro, A Noção de Poema, foi lançado em 1972. Com o passar dos anos, Júdice tornou-se um crítico literário influente em Portugal. Publica muito amiúde poesia, ensaios e romances...É um dos escritores portugueses mais traduzidos e a sua obra foi várias vezes condecorada. Por exemplo, em 1973, recebeu o prémio de poesia Pablo Neruda.  Viveu na Suíça, em Lisboa e também em Paris, onde exerceu o cargo de director do Instituto Camões. Foi o fundador da revista sobre poesia Tabacaria, publicada pela Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. 

Para os que quiserem descobrir, recomendo o livro Poesia Reunida, que compila grande parte da sua obra poética entre 1967 e 2000. 



Para escrever o poema
"O poeta quer escrever sobre um pássaro:
e o pássaro foge-lhe do verso.
O poeta quer escrever sobre a maçã:
e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.
O poeta quer escrever sobre uma flor:
e a flor murcha no jarro da estrofe.
Então, o poeta faz uma gaiola de palavras
para o pássaro não fugir.
Então, o poeta chama pela serpente
para que ela convença Eva a morder a maçã.
Então, o poeta põe água na estrofe
para que a flor não murche.
Mas um pássaro não canta
quando o fecham na gaiola.
A serpente não sai da terra
porque Eva tem medo de serpentes.
E a água que devia manter viva a flor
escorre por entre os versos.
E quando o poeta pousou a caneta,
o pássaro começou a voar,
Eva correu por entre as macieiras
e todas as flores nasceram da terra.
O poeta voltou a pegar na caneta,
escreveu o que tinha visto,
e o poema ficou feito."

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