"Uma vez que não podemos ser universais e saber tudo quanto se pode saber acerca de tudo, é preciso saber-se um pouco de tudo, pois é muito melhor saber-se alguma coisa de tudo do que saber-se tudo apenas de uma coisa." - Blaise Pascal

18 de setembro de 2015

Do Inquieto Oceano da Multidão

 

 Do inquieto oceano da multidão
veio a mim uma gota gentilmente
suspirando:

— Eu te amo, há longo tempo
fiz uma extensa caminhada apenas
para te olhar, tocar-te,
pois não podia morrer
sem te olhar uma vez antes,
com o meu temor de perder-te depois.

— Agora nos encontramos e olhamos,
estamos salvos,
retorna em paz ao oceano, meu amor,
também sou parte do oceano, meu amor,
não estamos assim tão separados,
olha a imensa curvatura,
a coesão de tudo tão perfeito!

Quanto a mim e a ti,
separa-nos o mar irresistível
levando-nos algum tempo afastados,
embora não possa afastar-nos sempre:
não fiques impaciente — um breve espaço
e fica certa de que eu saúdo o ar,
a terra e o oceano,
todos os dias ao pôr-do-sol
por tua amada causa, meu amor.


Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

13 de junho de 2015

Vem sentar-te comigo Lídia

 
 


Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis

10 de junho de 2015

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

 
 
 
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões

14 de abril de 2015

Histórias com cartoons


"Lantern" - (Rússia)  3º Prémio Festival Porto Cartoon 2015
Parece que ontem foi dia do Beijo. Mas, o beijo que aqui vos apresento nada tem a ver com essa pirosa invenção. Esta ilustração, chamada “Lantern”, é a ilustração que ganhou o 3º Prémio do Festival Porto Cartoon deste ano. A 17ª edição do Festival decorreu há algumas semanas no Museu Nacional da Imprensa, no Porto e o tema escolhido foi a Luz.  O grande Prémio foi para a ilustração "Window”  (Itália) e o 2º Prémio foi para a ilustração "Safe Light" (Polónia).
O Festival tem também o cartoon dedicado à caricatura e este ano as personagens escolhidas foram Cristiano Ronaldo e Ernest Hemingway. Aqui vos deixo a ilustração ganhadora para a caricatura de Hemingway, da qual gostei particularmente.




Quem teria certamente gostado do beijo debaixo da "Lanterna"  e do Velho e o Mar de Hemingway teria sido Georges Wolinski, um dos jornalistas e cartoonistas  assassinados durante o atentado ao jornal satírico Charlie Hebdo. Wolinski era desde 2004 o Presidente do júri  do PortoCartoon e estava bastante ligado a Portugal. Foi com certeza uma ausência bastante sentida este ano mas a sua hilariante obra continuará. Após o atentado, o Museu Nacional da Imprensa realizou a exposição "Charlie-Wolinski" em homenagem ao singular cartoonista. Segundo li, a exposição dará uma volta ao mundo.

Cá em Campo Maior, haveria provavelmente espaço para uma exposição de Wolinski  e para uma escola de desenho ! Why not ? Seria bem giro ! Temas não faltariam. Estou aqui a pensar num relacionado com saltos altos! Imaginem que li há pouco tempo num artigo por ai que mulheres que usam saltos muito altos podem esconder um enorme desejo de poder. Achei a analogia incrível! Nunca tinha pensado nisso mas, num mundo dominado por homens,  admito que seria um tema estupendo para um eventual Festival MayorCartoon.
 

3 de dezembro de 2014

Despedida

 
  
Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)

Quero solidão.
 
Cecília Meireles

19 de novembro de 2014

Da vez primeira em que me assassinaram



Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
...
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Mário Quintana

14 de novembro de 2014

Tanto ódio e tanto amor

 
 

Tanto ódio e tanto amor
Na minha alma contenho;
Mas o ódio inda é maior
Que o doido amor que te tenho
 
Odeio teu doce sorriso,
Odeio o teu lindo olhar,
E ainda mais a minha alma
Por tanto e tanto te amar!
 
Florbela Espanca