"Uma vez que não podemos ser universais e saber tudo quanto se pode saber acerca de tudo, é preciso saber-se um pouco de tudo, pois é muito melhor saber-se alguma coisa de tudo do que saber-se tudo apenas de uma coisa." - Blaise Pascal

28 de agosto de 2016

I Have a Dream



Faz hoje 53 anos que foi pronunciado um dos discurso mais bonitos e poderosos da humanidade! Um homem subiu as escadas do Lincoln Memorial em Washington e começou a falar para uma multidão de mais de 250 mil pessoas! Os manifestantes -negros, brancos, pobres e ricos- juntaram-se na capital para exigir o direito de voto e oportunidades iguais para americanos negros e apelar para o fim da segregação e discriminação racial. Embora vários oradores tivessem estado presentes em defesa dessa causa justa, o que marcou esse dia, foram as famosas palavras de Martin Luther King: "Tenho um sonho de que um dia esta nação se levante e viva para sempre o verdadeiro significado das suas crenças: ´Defendemos a verdade evidente de que todos os homens são iguais.`"
Infelizmente, esse homem pagou com a vida o seu sonho, sendo assassinado 5 anos mais tarde. No entanto, a sua morte não foi em vão e muitas mudanças positivas ocorreram no seguimento da sua morte.

"Só é digno da liberdade, como da vida, aquele que se empenha em conquistá-la."
                                                                                   Johann Wolfgang von Goethe

Post reeditado

10 de junho de 2016

Sobre os rios que vão


Sobre os rios que vão

Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.


Ali, lembranças contentes
n'alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.


E vi que todos os danos
se causavam das mudanças
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.


Vi aquilo que mais vale,
que então se entende melhor
quanto mais perdido for;
vi o bem suceder o mal,
e o mal, muito pior,
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento,
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.

.......................

Redondilha Sobre os rios que vão (estrofes 1 a 4)
Luís Vaz de Camões

1 de junho de 2016

Ode à Criança


 

Ode à Criança 
A criança é criativa porque é crescimento e se cria a si própria. É como um rei, porque impõe ao mundo as suas ideias, os seus sentimentos e as suas fantasias. Ignora o mundo do acaso, pré-elaborado, e constrói o seu próprio mundo de ideais. Tem uma sexualidade própria. Os adultos cometem um pecado bárbaro ao destruir a criatividade da criança pelo roubo do seu mundo, sufocando-a com um saber artificial e morto, e orientando-a no sentido de finalidades que lhe são estranhas. A criança é sem finalidade, cria brincando e crescendo suavemente; se não for perturbada pela violência, não aceita nada que não possa verdadeiramente assimilar; todo o objecto em que toca vive, a criança é cosmos, mundo, vê as últimas coisas, o absoluto, ainda que não saiba dar-lhes expressão: mas mata-se a criança ensinando-a a ater-se a finalidades e agrilhoando-a a uma rotina vulgar a que, hipocritamente, se chama realidade.

                                                                          Robert Musil

19 de maio de 2016

A Impossibilidade de Renúncia

Mário de Sá Carneiro
Nascido a 19 de Maio de 1890

A Impossibilidade de Renúncia

"Eu decido correr a uma provável desilusão: e uma manhã recebo na alma mais uma vergastada - prova real dessa desilusão. Era o momento de recuar. Mas eu não recuo. Sei já, positivamente sei, que só há ruínas no termo do beco, e continuo a correr para ele até que os braços se me partem de encontro ao muro espesso do beco sem saída. E você não imagina, meu querido Fernando, aonde me tem conduzido esta maneira de ser!... Há na minha vida um bem lamentável episódio que só se explica assim. Aqueles que o conhecem, no momento em que o vivi, chamaram-lhe loucura e disparate inexplicável. Mas não era, não era. É que eu, se começo a beber um copo de fel, hei-de forçosamente bebê-lo até ao fim. Porque - coisa estranha! - sofro menos esgotando-o até à última gota, do que lançando-o apenas encetado. Eu sou daqueles que vão até ao fim. Esta impossibilidade de renúncia, eu acho-a bela artisticamente, hei-de mesmo tratá-la num dos meus contos, mas na vida é uma triste coisa. Os actos da minha existência íntima, um deles quase trágico, são resultantes directos desse triste fardo. E, coisas que parecem inexplicáveis, explicam-se assim. Mas ninguém as compreende. Ou tão raros".

Mário de Sá-Carneiro - "Cartas a Fernando Pessoa"

  

8 de abril de 2016

É Isto o Amor













É Isto o Amor

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

Nuno Júdice

21 de março de 2016

Quando Vier a Primavera


Felice Casorati
 
 
Quando Vier a Primavera
 
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


Alberto Caeiro
    

6 de novembro de 2015

Eis-me

Sophia de Mello Breyner Andresen 
 Nascida a 6 de Novembro de 1919



















Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
                        [em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner Andresen

18 de setembro de 2015

Do Inquieto Oceano da Multidão

 

 Do inquieto oceano da multidão
veio a mim uma gota gentilmente
suspirando:

— Eu te amo, há longo tempo
fiz uma extensa caminhada apenas
para te olhar, tocar-te,
pois não podia morrer
sem te olhar uma vez antes,
com o meu temor de perder-te depois.

— Agora nos encontramos e olhamos,
estamos salvos,
retorna em paz ao oceano, meu amor,
também sou parte do oceano, meu amor,
não estamos assim tão separados,
olha a imensa curvatura,
a coesão de tudo tão perfeito!

Quanto a mim e a ti,
separa-nos o mar irresistível
levando-nos algum tempo afastados,
embora não possa afastar-nos sempre:
não fiques impaciente — um breve espaço
e fica certa de que eu saúdo o ar,
a terra e o oceano,
todos os dias ao pôr-do-sol
por tua amada causa, meu amor.


Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

13 de junho de 2015

Vem sentar-te comigo Lídia

 
 


Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis

10 de junho de 2015

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

 
 
 
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões

14 de abril de 2015

Histórias com cartoons


"Lantern" - (Rússia)  3º Prémio Festival Porto Cartoon 2015
Parece que ontem foi dia do Beijo. Mas, o beijo que aqui vos apresento nada tem a ver com essa pirosa invenção. Esta ilustração, chamada “Lantern”, é a ilustração que ganhou o 3º Prémio do Festival Porto Cartoon deste ano. A 17ª edição do Festival decorreu há algumas semanas no Museu Nacional da Imprensa, no Porto e o tema escolhido foi a Luz.  O grande Prémio foi para a ilustração "Window”  (Itália) e o 2º Prémio foi para a ilustração "Safe Light" (Polónia).
O Festival tem também o cartoon dedicado à caricatura e este ano as personagens escolhidas foram Cristiano Ronaldo e Ernest Hemingway. Aqui vos deixo a ilustração ganhadora para a caricatura de Hemingway, da qual gostei particularmente.




Quem teria certamente gostado do beijo debaixo da "Lanterna"  e do Velho e o Mar de Hemingway teria sido Georges Wolinski, um dos jornalistas e cartoonistas  assassinados durante o atentado ao jornal satírico Charlie Hebdo. Wolinski era desde 2004 o Presidente do júri  do PortoCartoon e estava bastante ligado a Portugal. Foi com certeza uma ausência bastante sentida este ano mas a sua hilariante obra continuará. Após o atentado, o Museu Nacional da Imprensa realizou a exposição "Charlie-Wolinski" em homenagem ao singular cartoonista. Segundo li, a exposição dará uma volta ao mundo.

Cá em Campo Maior, haveria provavelmente espaço para uma exposição de Wolinski  e para uma escola de desenho ! Why not ? Seria bem giro ! Temas não faltariam. Estou aqui a pensar num relacionado com saltos altos! Imaginem que li há pouco tempo num artigo por ai que mulheres que usam saltos muito altos podem esconder um enorme desejo de poder. Achei a analogia incrível! Nunca tinha pensado nisso mas, num mundo dominado por homens,  admito que seria um tema estupendo para um eventual Festival MayorCartoon.
 

3 de dezembro de 2014

Despedida

 
  
Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)

Quero solidão.
 
Cecília Meireles

19 de novembro de 2014

Da vez primeira em que me assassinaram



Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
...
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Mário Quintana

14 de novembro de 2014

Tanto ódio e tanto amor

 
 

Tanto ódio e tanto amor
Na minha alma contenho;
Mas o ódio inda é maior
Que o doido amor que te tenho
 
Odeio teu doce sorriso,
Odeio o teu lindo olhar,
E ainda mais a minha alma
Por tanto e tanto te amar!
 
Florbela Espanca

31 de outubro de 2014

Ainda que mal

Carlos Drummond de Andrade 31/10/1902 - 17/08/1987


Ainda que Mal

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrade

24 de outubro de 2014

Como Eu não Possuo



Como Eu não Possuo

Olho em volta de mim. Todos possuem -
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da côr que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lôdo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse - ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...

Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...

Mario de Sá Carneiro

7 de outubro de 2014

O amor é ter medo e querer morrer


 
Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor. Eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer. O amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte de nós que não é nossa. O amor é sermos fracos. O amor é ter medo e querer morrer.

José Luis Peixoto 

23 de setembro de 2014

Já não se encantarão meus olhos



PABLO NERUDA
1904 - 1973



Já não se encantarão meus olhos
Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.
Pablo Neruda

19 de setembro de 2014

Na Rive Gauche do Jardim Municipal



Hoje apeteceu-me revisitar um post que tinha escrito sobre os alfarrabistas de Paris. Encontrarão a explicação desta súbita vontade na última parte deste post.
Quem já visitou Paris sabe que o seu principal encanto é o rio Sena e as suas margens. É uma cidade onde se respira poesia ! A Rive Gauche, não se limita a uma área geográfica. Dou-vos como exemplo a famosa Catedral de Notre Dame, que embora se localize na margem direita, é considerada parte integrante da Rive Gauche. Não é de admirar que assim seja pois basta atravessar le Pont Neuf (a Ponte Nova) para entrar num dos bairros mais ricos a nível cultural e social da cidade. Rive Gauche (margem sul) é o nome que ouvirá se perguntar onde se encontram os famosos bouquinistes.

Bouquiniste vem da palavra bouquin que designava um livro velho. Os bouquinistes são portanto alfarrabistas ou vendedores ambulantes de livros antigos e livros de 2ª mão. Conta a história que essa tradição começou no século 17. Um dia, alguns livreiros decidiram instalar-se no Pont Neuf, a mais antiga das 37 pontes existentes na cidade provocando simpatia por parte da população de leitores, mesmo dos mais conservadores e revolucionou o acesso aos livros até então, restrito às livrarias.

Em Campo Maior, não temos rio, nem pontes, nem catedrais, mas temos um lindo Jardim Municipal onde podemos ter "bouquinistas"! Esta ideia invadiu-me no domingo quando ao deambular pela feira de velharias me deparei com 2 comerciantes de livros ! Embora não tivessem grande coisa gostei muito do ambiente. Gostei de ver a felicidade de um sr. que comprou 2 livros sobre a guerra civil na Rússia  por apenas 0,50 € cada um. Também eu fiquei feliz de vir de lá com uma velha edição de História da Literatura Portuguesa.  Gostei do cheiro dos livros. Gostei de imaginar o que poderia dar se tivessemos metade do Jardim reservada a Alfarrabistas 1 vez por mês! Sim, nessa manhã de encanto gostei de tudo. Gostei da cigana, com ares de Esmeralda, que tentou vender-me uma lindíssima pulseira em prata italiana ! Gostei até de ver quem impassivelmente deambulava pela Rive Gauche em direcção à Ile de la Cité, ao avistar a Igreja da Matriz,  que tomei por Notre Dame...

13 de setembro de 2014

Dicionário de suicidas ilustres

Há sensivelmente 1 mês, espalhava-se pelo mundo a triste notícia da morte de Robin Williams. O mais chocante para muitos foi saber que morreu por suicídio. Para mim,  romântica inveterada, foi difícil conceber que John Keating - o professor de literatura que mais venerei - tenha escolhido uma forma tão pouco poética de pôr fim à  vida. Muitos dirão que Keating é apenas uma personagem inventada e que não teve influência na vida dos que viram o filme mas será mesmo assim ? A história da literatura tem mostrado o poder que pode ter uma personagem. Vejam como exemplo Anna Kerenina de Tolstoi que se tornou num ícone de beleza e de amor incondicional e o  Jovem Werther de J. Goethe que provocou uma onda de suicídios na Europa devido à poderosa mensagem de desespero romântico que veiculou aos leitores. Por sinal estas mesmas personagens - Anna Kerenina e o Jovem Werther-  cometeram suicídio.    
Voltando a Robin Williams, como ele, muitos outros ilustres de carne e osso também cometeram suicídio.  Hemingway, por exemplo, disparou um tiro cabeça, Virgínia Woolf afogou-se  num rio com  os bolsos cheios de pedras, Mário de Sá Carneiro envenenou-se  e até  Sêneca se suicidou (mesmo que por obrigação) cortando as veias. 
Bem, mas este post não é uma apologia ao suicídio. É apenas um convite à reflexão sobre um tema sensível que misterosamente toca uma classe intelectual superior à média. Sobre este mesmo tema podem encontrar mais de 700 referências biográficas  no  polêmico e inédito Dicionário de Suicidas  Ilustres, organizado pelo escritor brasileiro J. Toledo. A obra visa  resgatar personagens históricos ou ficcionais que, de um modo ou de outro, optaram pela saída de emergência; buscar a morte por suas próprias mãos.
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